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27 de fevereiro de 2011

Uma em quatro mulheres relata maus-tratos durante o parto.

Chorando em um hospital, agulhada pelas dores das contrações do parto, mulheres brasileiras ainda têm de ouvir maus-tratos verbais como: "Na hora de fazer não chorou, não chamou a mamãe. Por que tá chorando agora?". A informação é da reportagem de Laura Capriglione publicada na edição desta quinta-feira da Folha (íntegra disponível para assinantes do jornal e do UOL).

De acordo com o texto, uma em cada quatro mulheres que deram à luz em hospitais públicos ou privados relatou algum tipo de agressão no parto, perpretada por profissionais de saúde que deveriam acolhê-la e zelar por seu bem-estar. São agressões que vão da recusa em oferecer algum alívio para a dor e xingamentos até gritos e tratamentos grosseiros com viés discriminatório.
Os dados integram o estudo "Mulheres brasileiras e gênero nos espaços público e privado", realizado em agosto de 2010 pela Fundação Perseu Abramo e pelo Sesc e divulgado agora. A Folha obteve com exclusividade o capítulo "Violência no Parto", que pela primeira vez quantificou à escala nacional, a partir de entrevistas em 25 unidades da Federação e em 176 municípios, a incidência dos maus-tratos contra parturientes.

Fonte: http://www.folha.com/

23 de abril de 2009

09/02/07

Durante o dia, o tempo voa.
A partir desta semana, eu começo a fazer meu voluntariado pelas manhãs e sigo até no máximo às 17h.
Eu achava que era tempo demais, mas durante o dia, as coisas acontecem muito rápido, é bem diferente da noite. Que estranho!

Eu tenho 3 casos pra relatar hoje.
Um, é de uma mulher que eu nem sei o nome, por que mal consegui colocar a mão nela. Na verdade nem é sobre ela que eu vou falar, mas sobre não ter conseguido chegar até ela pra trabalhar.

Faz 2 anos que eu trabalho na maternidade.
1 ano e 5 meses que entro no centro cirúrgico e de repente uma pessoa do setor, resolveu que eu tenho que pedir permissão pra fazer as coisas.
Ela sempre soube que eu ia lá, imaginei que soubesse do que se tratava meu trabalho e por onde eu andava.
Ela nunca ficou de noite, nem mesmo pra trocar meia dúzia de palavras comigo, então até no centro cirúrgico ela foi atrás de mim, pra saber quem tinha deixado eu entrar.
Detalhe: tem uma senha pra ser digitada na porta do CC. E eu estava lá dentro, logo, tenho a senha! Acho que isso prova que alguém me deu permissão pra entrar, não?
Agora pense... Estou lá, trabalhando e quero sugerir pra mulher, uma mudança de posição. Pára tudo, sai da sala, acha a dita cuja e pede permissão. Me diz se tem cabimento?
Enfim, eu fiquei um pouco incomodada, mas no fim das contas, decidi que vou ficar na minha, fazendo tudo o que sempre fiz. Se ela estiver por perto, eu aviso, peço, imploro. Se não, sigo meu caminho.

Bom, foi por isso que eu não consegui trabalhar com a mulher que eu nem sei o nome. Ela ficou O TEMPO TODO na sala, segurando a mão da mulher e se colocando como um obstáculo... E a atuação foi, sei lá... Dêem um nome: 2 toques em menos de 20 minutos, ordem de puxo, de não grite, bolsa rompida artificialmente, negativa pra o banho e entrada precoce no CC.
E o pior: outras pessoas do setor disseram que ela nunca fica na sala do TP...

Não gosto de falar mal. Mas fiquei mesmo, muito P... da vida. Vou ali tomar um copo de água e já volto.

ps. Depois conto das outras duas...

M., risadinha. Acho que nunca vou me esquecer desta moça. Ela era muito jovem e estava internada há uns dias já. O TP dela não começava, apesar dos litros de soro que tomou. E ela viu passar muita das parturientes dos últimos dias. E ela ria. Ela ria muito, de tudo. Muito engraçada... A gente conversou demais e rimos muito juntas!
Enfim, quando ao ocitocina finalmente fez efeito, as coisas andaram muito rápido pra ela. E ela parou de rir.
Como nós ficamos o dia inteiro juntas, ela se agarrou em mim como se eu fosse uma velha amiga e foi muito bom! Ela gemia, se mexia, acocorava, ajoelhava no chão. Estava muito entregue ao TP.
Não demorou muito pra ela começar a fazer força, sem ordens, instintivamente, respeitando os puxos. Ela foi levada ao CC e eu fui junto. O expulsivo não foi rápido como a evolução, mas ela não teve epsio.

A E. assistia o desenrolar do TP da risadinha, meio apreenssiva e querendo censurar, como se dar risada nesta hora, fosse inadequado. Ela estava no início do TP, com 2cm de dilatação, mas com contrações irregulares. Tomou banho, ficou com a mãe e deitou pra descansar, já que as suas contrações permitiam.
Eu passei toda a orientação que pude e vim embora, não pude ficar até o nascimento do bebê.

1 de outubro de 2008

30/06/06

Mulher demais....

2 mulheres estavam em TP.
Logo que eu cheguei, nenhuma das duas estava sentindo muita coisa. Mas a V., estava enrolada em cobertas, encolhida e sentindo muita pena de si mesma. A mãe dela também estava deixando o clima bem pesado, falando de dor e sofrimento o tempo todo. Conversei muito com as duas sobre esta postura, mas não adiantou muito e de vez em quando a sogra também entrava pra reforçar o coro.
De qualquer maneira, consegui tirá-la daquela cama um pouco, ela tomou banho, tentou fazer alguns exercícios, sentou na bola, etc. Mas apesar da evolução dela estar boa, nada diferente do esperado, ela não acreditava nisso. Pra ela, estava demorando demais e iam todos sofrer muito, uma tragédia anunciada!
Não sei o que aconteceu na portaria, por que não deixam passar mais de um acompanhante por paciente, mas a sala de TP tava uma bagunça neste dia! O GO veio e mandou os excessos embora, mas a sogra da V. conseguiu voltar!!!
A maternidade estava lotada e tinha mulher que já tinha parido, alojada na sala de TP, com neném e acompanhante, um converseiro, um barulho, ninguém merece.
Enfim, a V. acabou encaminhada pra uma cesárea. Por que já era quase meia noite, o TP deu uma estacionada, ela estava reagindo mal (psicologicamente), a mãe pressionando, a sogra também... Aff!

Enquanto eu tentava atender a V. (que não queria muita conversa e além de tudo, colocava a culpa do sofrimento do TP no fato de ser obesa), eu acudia a J. também.
Segundo bebê, ela não relatou contrações intensas em nenhum momento. Quando cheguei ela estava deitada, aceitou tomar um longo banho e ficar numa posição verticalizada. Ela respirava com um certo ritmo e isso ajudava a ter algum controle sobre as contrações.
Também ficou na bola, quicando e achando graça. Logo ela sentiu vontade de fazer força e quando vieram tocar, o bebê já estava no canal de parto. Fomos para o centro cirúrgico e ela não precisou fazer força durante o expulsivo, embora estivesse sendo assistida por um estagiário (e o residente) e o cara não tivesse muito domínio da coisa... nervoso, trêmulo, falando bobagens... ai, ai...

Eu já estava querendo ir embora, quando passei pela sala de espera e dei com duas barrigudas (uma conhecida e outra não). A conhecida é a C., já falei dela aqui, vive no hospital, por conta de uma infecção urinária que não sara nunca.
A K. estava com contrações próximas e ritmadas. Segundo bebê também. E quando o residente tocou, constatou uma dilatação de 9cm. Aí, caiu na besteira de levar ela direto pro CC. Lá as contrações pararam completamente. Fizeram ela deitar e colocar as pernas no estribo, antes da dilatação completa. Quando eu cheguei no CC, ela já estava assim e eu não tenho tanta moral pra mudar uma situação já definida... Se pelo menos fosse o GO e não residente, eu teria tentado.
Mas enfim, durante as contrações ela não tinha o que fazer, além de gritar, por que não tinha mobilidade nenhuma, nenhum controle. Eles fizeram tudo errado desta vez, pedindo pra ela empurrar, forçando o término da dilatação. Na hora de aparar, o cara mal pegava no bebê direito, aquilo demorou uma eternidade! Eu detestei presenciar isso.... E nem tive tempo de conversar com o GO sobre o que aconteceu!
Mas no fim, uma laceração bem pequena e um bebê saudável...

28/04/06

Dia intenso...

Mas como hoje já é dia 20 de maio e eu não tinha conseguido escrever ainda, esqueci muitos detalhes.. Que meleca!
Foram quatro nascimentos a partir do momento que eu cheguei e 11 ao longo do dia!
É, a maternidade estava animada!

L. estava com 4cm quando chegou na maternidade, passou o TP inteiro chorando muito. Mas o choro não era de dor (não só de dor), era um choro de angústia, de solidão... Ela estava sem acompanhante e pouco acessível. Tentei em vão fazê-la se abrir, fazer com que falasse o que a afligia tanto, que o TP seria mais rápido e tranqüilo se ela conseguisse falar. Pude fazer muito pouco, mas fiquei com ela até o fim.
Depois que o bebê nasceu, o comportamento dela mudou, mas não foi pra melhor. Ela ficou arredia e dava pulos na mesa, fechando a perna, impedindo o GO de suturar uma pequena laceração. Ela estava muito alterada, parecia nem se dar conta de que o bebê já havia nascido. Precisou ser sedada para que a equipe concluísse o atendimento.
De volta ao quarto e já em condições de conversar, ela se abriu: o marido a abandonou quando ela engravidou, alegando que este bebê não era dele. E ela já tinha 2 filhas (gêmeas), com menos de 2 anos... e ela, com menos de 20.

Outra mulher, L. também, estava na maternidade há dois dias já. Caso típico de internação precoce. Tentaram a indução, mas ela não estava sentindo absolutamente nada. Ao final do dia, optaram pela cesárea e acabaram descobrindo um tumor enorme no útero.

P., grávida do terceiro bebê, os dois primeiros de parto normal, causou estranheza pela lentidão do progresso do TP. No entanto, entre 8cm e o nascimento, não deu nem 15 minutos. Ela demorou pra chegar em 8cm, mas quando chegou, foi a jato!

M., estava com a mãe, internada desde cedo, tomando soro, sem evolução satisfatória (segundo a visão da equipe). Ela e a mãe foram muito receptivas à minha presença e fizeram muitos exercícios juntas. O TP dela evoluiu bem depois disso.
Ela, com dilatação total e com vontade de fazer força, o bebê alto e as posições não ajudando a descida. Ela estava ficando cansada.
O setor estava bem agitado e o médico no CC. Pedi para uma enfermeira vir até o quarto e avaliar o que poderia ser feito. Ela fez um toque e sentiu algo estranho: dilatação total, bebê alto e ‘uma coisa muito dura logo após a entrada da vagina’... Acreditem! M. tinha o intestino preso e não ia ao banheiro há dias. Tinha um cocozão (desculpem o termo, não sabia como espressar) atrapalhando a descida do bebê!
Uns 15 minutos depois, o GO veio até a sala e removeu o obstáculo (colocando a mão na vagina, como se fosse fazer um toque e pressionando o conteúdo pra fora). Uma vez feito isso, a cabeça do bebê já apareceu e fomos todos para o CC.

Foram 2 PN’s com indução, 1 sem soro e os 3 sem epsiotomia.

3 de maio de 2008

27/01/06

Parto sem episio!!

R., primigesta, 41 semanas, 2cm de dilatação, internada desde às 11:30 da manhã. Acompanhada da mãe, estava deitada na cama, sem dores e sem nenhuma vontade de sair do lugar. O médico tinha colocado remédio na vagina pra estimular as contrações um pouco antes de eu chegar e precisei gastar muita saliva para fazer com que ela decidisse sair da cama.

Mas, uma vez de pé, caminhou muito, subiu e desceu escadas e rampas, sentou na bola, colaborou. Ela não era muito de falar e como as dores pareciam muito suaves, eu raramente sabia quando ela estava tendo uma contração.

Ela não parecia querer nada daquilo. Fiquei com a sensação de estar forçando a barra e decidi dar mais espaço pra ela. O resultado disso é que ela ficou muito tempo deitada e começou a resmungar que não sentia nada.

A esta altura a M. já tinha chegado e como expressava muito mais objetivamente o seu desconforto e pedia constantemente meu apoio, decidi dar mais atenção á ela do que a R.

Estávamos todas no mesmo quarto e eu sempre perguntava pra R. como ela estava, se não queria andar, tomar banho, se queria massagem entre as contrações e ela não se animava, nem parecia que estava em TP.

Acho que aos poucos o TP da M. foi contagiando o ambiente e ela decidiu sair da cama e caminhar na companhia da mãe. Em pouco tempo as dores começaram a ficar mais fortes, mas ela acabou voltando para a cama. Às 23h, depois de 5 horas de TP induzido, ela evoluiu mais 2cm e teve a cesárea indicada.

M., primigesta, 40 semanas, chegou com 1cm de dilatação e fazendo muito barulho.
Ela parecia estar no período de transição desde o começo e também aparentava total descontrole sobre o que sentia.
Caminhar era quase impossível, pois as contrações estavam muito próximas umas das outras. De pé, ela se apoiava em mim, largando completamente o corpo para a frente. Ela não conseguia ficar deitada ou sentada na cama, queria mesmo era apoiar em mim, sentar na bola e ficar de joelhos no colchonete. Isso até antes de descobrir o vaso sanitário. Nele, ela se transformava, parecia mais centrada, mais tranqüila, embora ainda sentisse dor.

O banho de chuveiro tinha o mesmo efeito calmante sobre ela. A M. é o tipo de mulher que as maternidades não gostam... ela gritava muito e muito alto. Pra quem estava de fora, parecia total desespero. Na verdade, nós rimos bastante juntas, por que ela falava umas coisas engraçadas e tinha umas reações irritadas, totalmente nada a ver entre as contrações.

A evolução dela estava muito lenta, o que a deixava ainda mais irritada, por que ela estava vendo o processo como algo muito doloroso, muito intenso e reclamava de não ser justo demorar tanto para conseguir só mais 1 ou 2cm. É difícil convencer uma mulher nesta situação de que mais 1cm é muita coisa, que o pensamento deveria ser: já foram 4cm! e não: ainda faltam 6!!

Quando o residente veio examinar a R. e indicou a cesárea, ele examinou a M. também e como ela estava com 4cm (esperava -se que fosse mais), ele disse que ia levar a R. pro CC e na volta se ela não tivesse evoluído mais, seria encaminhada pra cirurgia. Ela seguiu o curso dela, respirando, levantando, gemendo, etc. sem se importar muito com o desfecho.

Senta, levanta, anda, bola, vaso, agacha, pendura em mim....Precisei ir até a portaria, por volta de meia noite e aproveitei para procurar o marido dela e dar uma posição. Eis que descubro que o conheço!! Conversamos um pouco, falei da possível indicação da cesárea e voltei pra ficar com ela. Acho que ter certeza de que o marido estava lá fora esperando, deu um novo ânimo para ela e em pouco tempo ela chegou à dilatação total.

Um pouco antes da 1h da manhã, ela foi encaminhada ao CC (antes da R. que foi pra cesárea!!) e eu fui junto. Ela estava cansada, mas não foi preciso fazer muita força, o F. logo nasceu, sem que a mãe dele precisasse de uma epsiotomia.

Dado curioso: o residente só percebeu que não fez epsiotomia, depois de ter cortado o cordão e passado o bebê para a pediatra. Ele me olhou com olhos arregalados e disse: ah... nem teve epsio! E ainda disse que foi por que ela ficou na minha bola... O hábito é tão grande que o cara só percebe que não fez, depois!

C., primigesta, soropositiva para HIV, chegou na maternidade com contrações e 4cm de dilatação. A cesárea foi indicada por causa do HIV, mas antes de entrar para a cirurgia, ela precisava tomar alguns medicamentos. O TP dela também foi ficando intenso, mas eu mal consegui dar suporte, por que estava acompanhando a M. De qualquer maneira, as poucas massagens que consegui fazer nela, foram lembradas mais tarde como: a melhor coisa do mundo naquele momento... palavras dela.

25/11/05

Cadê o GO?

O médico do plantão da sexta não foi hoje, confesso que isso me desestimula bastante, por que outros médicos não conhecem a minha função e me olham com uma cara estranha, como se voluntárias fosse só as velhinhas da rua da casa da mãe deles....

Além disso, na ausência dele, o número de cesáreas aumenta consideravelmente e eu não tenho estômago pra isso (não pra cesárea, mas para a conduta).

Acabou que eu não fiquei lá. Vim pra casa, curtir meu filhote que estava particularmente engraçado hoje!

18/11/05

Um TP inspirador, o parto nem tanto.

Quando eu cheguei quase às 19h, a E. dividia a sala de TP com a M.

Ela estava acompanhada da mãe que era um misto de angústia e felicidade, apoio e apreensão. O toque havia sido feito a pouco, 7cm e a E. tinha acabado de sair do banho, que foi tomado com a intenção de aliviar o calor e não de ajudar no TP. Ela estava deitada, sem soro e tendo contrações ritmadas.

A mãe sai do quarto pra trocar de lugar com a nora. Enquanto ela não chega, eu aproveito pra conversar com a E. Explico o meu papel e o que eu acho que ela deve fazer para que as dores fiquem mais suportáveis, falo das posições, das massagens e do quanto o TP depende dela, etc.

Eis uma das mulheres em TP no voluntariado mais receptivas de todos os tempos. Ela estava sentindo muita dor, uma enorme vontade de gritar e se mexer, mas estava com medo. Não precisou de muito incentivo para mudar tudo.

A cunhada entra e fica ao nosso lado, segurando a outra mão da E., nos ajudando nos movimentos, etc. Ela sentou, ergueu as pernas, fez posição de borboleta, saiu da cama, caminhou, rebolou, agachou, gritou, gemeu, descansou, permitiu massagem, etc, etc. Ela fez tudo o que pôde!

Num determinado momento o residente entra no TP e diz: -Não grita, não! Gritar prende o bebê! E quando ele saiu eu disse: -Faça o que te der a cabeça, só não se desespere, seu corpo sabe como deve agir... Não é uma questão de querer ir contra o médico, mas queria ver se fosse com ele... Se ele ia querer gritar, gemer ou ficar calado.

Menos de uma hora depois, ela estava com dilatação completa. Neste toque, estávamos eu, a mãe, o médico e o residente. Fizemos festa pra ela, parabenizando o esforço e explicando os próximos passos. O médico pede à enfermeira que a leve ao CC e me pergunta se eu quero ir. Hum... mudanças! Nem foi preciso pedir!

É claro que eu fui! De novo temos uma mulher deitada de barriga para cima, pernas no estribo, o residente falando pra fazer força e querendo cortar (o médico mandando esperar, mas ela não escapou da epsiotomia), o médico pressiona a barriga dela, não chega a ser um Kristeller, o residente não pára de mexer na vulva dela, como que alargando a saída. Isso me incomoda muito, dá muita vontade de falar pra ele parar, pra tirar a mão!

Nasce o JP. Um bebê bem grande, já cheio de dobras. Tudo bem com ele, fazem os procedimentos de rotina (aspirar vias, limpar, etc), enrolam o pequeno num pano e trazem pra E. ver, ela dá um beijo nele, conversa e a pediatra já ia saindo quando eu disse:

-Ele não pode ficar um pouco mais? Posso colocar o bebê no peito dela? A pediatra olha pro médico, ele consente e ela me pede para levar o bebê ao berçário depois, por que ela não pode esperar.

O que acontece é que a UTI neonatal fica em outro andar e a pediatra vem de lá para atender os partos. Então ela não pode ficar. O JP. ficou uns 20 minutos com a mãe. Ergui a roupa dela e o coloquei deitado próximo ao seio. Ele não mamou, mas ficou lá sendo babado pela mãe. Aproveitei e falei um pouco (bem pouco mesmo) sobre vínculo e amamentação com ela.

A enfermeira do CC comenta que este é o verdadeiro parto humanizado! Mordo a língua pra não responder. Falta tanto ainda.... mas tudo bem, um passo de cada vez.

Depois levei o bebê pro berçário, onde ele tomou banho, vacinas, foi trocado e admirado pela família, e voltei pro CC. A expulsão da placenta demorou bastante, ela precisou tomar ocitocina pra ajudar e depois que eu saí do CC, ela teve uma enorme queda de pressão e uma pequena hemorragia.


A maternidade estava cheia hoje e muitas mulheres passaram por consulta. Acho que não comentei aqui, mas quando o médico entra na sala com elas, precisa haver outra mulher e quase sempre sou eu. Também passei nos quartos para a tradicional conversinha do peito com uma ou outra mãe.

Ah! Hoje tinha uma menininha japonesa, coisa mais fofa! O cabelo dela era pretinho e espetado, como os dos bebês orientais, só que tinha as pontas bem claras! Parecia que ela tinha feito luzes! Pode?

07/10/2005

Serviço completo!

Cheguei mais tarde que o habitual hoje e uma mulher havia acabado de ter seu bebê. Ainda gozaram da minha cara, dizendo que eu cheguei atrasada para o que provavelmente, seria o único nascimento da noite. Peguei fama de pé quente (pra eles, né?), por que basta dar a minha hora de entrar, que as consultas encerram, não há admissão e conseqüentemente nenhum TP.

A. estava sozinha no TP, com ocitocina na veia e bastante desconfortável. Começamos conversando sobre a evolução dela, nome, um pouco sobre o bebê, etc. Chegou cedo demais ao hospital e estava impaciente. Não ajudou muito no processo, queixando-se de toda orientação que era dada. Não queria se ajeitar na cama, não conseguia levantar a perna, nem ficar de lado. Comportamento típico de entrega, que dificulta muito as coisas, por que dá a impressão de que a pessoa não quer ajuda nenhuma, quando na verdade é bem o contrário.

Com muito custo, consegui que ela sentasse na cama, ergui o leito, arrumamos os lençóis, ela penteou o cabelo, pediu água. Pareceu mais à vontade com a minha presença. Quando cheguei, o último toque apontava 4cm de dilatação. Meia hora depois, às 20:30h, 6cm. O máximo que eu consegui fazer foi ficar ao lado dela, segurando a mão bem forte durante as contrações, acariciando seu braço, enxugando o suor dela e falando palavras de incentivo.

Às 22:30h, 8cm de dilatação, colo fino, bebê descendo. Antes disso, o soro escapou da mão dela e demoram pra vir recolocar. Ficaram especulando se a lentidão do TP era por causa disso, aumentaram o fluxo do soro. Colocaram o cardiotoco, tudo normal. Por volta de 23h, o médico cruza comigo no corredor e pergunta como estão as coisas. Sou sincera ao dizer que ela não está ajudando muito e ele entra no quarto para ver como ela está. Ele meio que deu uma chamada nela, não uma bronca, mas um sacode... E ela de repente se pôs a colaborar mais. Logo estava com dilatação completa e começamos a ensaiar a força que ela deveria fazer pra ajudar na decida. Eu segurava a mão dela de um lado e o médico do outro. Em poucos minutos ele diz: Vamos para a sala de parto. Ela pede que eu a acompanhe, eu olho pro médico e repito o pedido. Ele concorda!

Chega o dia da minha primeira entrada no CC, meu primeiro expulsivo no voluntariado!Ajudei-a a subir na maca, levei-a até a porta do CC e fui me trocar. Roupinha verde, toquinha, máscara, sapatinho e lá fui eu, feliz da vida!

Infelizmente as condições não são as melhores. Mulher deitada de barriga pra cima, pernas pro alto, ambiente impessoal. O médico me apresentou pra equipe e decidiram que me chamar de apoio é mais fácil do que me chamar de doula. Ela fez força umas 4 vezes e o médico decidiu pela epsio. Então, na próxima força, nasce o T. Todo sujo de mecônio muito espesso, não chora imediatamente. A pediatra inicia os procedimentos, sai uma quantidade preocupante de mecônio na cânula, chamam a pediatra da UTI neo natal.

A mãe está alheia ao que acontece, o bebê chora um pouco e ela me pergunta se está tudo bem. Digo que sim, que as pediatras estão cuidando dele e que já o trarão para ela. No fim, ele abre os olhos, chora com vontade, mas como ainda respira muito rápido, cansado, decidem descer com ele para a UTI. Ficará em observação. Ela parece ficar tranqüila com as explicações que recebe, pergunta pra mim se é só isso mesmo. Enquanto o médico sutura e epsio, a gente conversa sobre o que passou, ela ri de como estava mal humorada e de como não ajudava. Agradece à mim, não larga minha mão um só segundo. Agradece aos demais e pede a Deus pra que seu pequenino fique bem.

Saio do CC, dou de cara com a irmã dela, que estava o tempo todo com a gente durante o TP (nem mencionei, né?, a mulher atrapalhava muito, só falava coisas inadequadas, quando saía de perto era um alívio). Ela me pergunta por que o bebê não ficou no berçário e na mesma hora antes que eu possa responder, o médico entra na sala. Ele começa a explicar e ela fala em culpa.

Ele ficou um pouco perturbado com esse comentário, não por que houvesse culpa, mas acredito que seja por que a mulher nem esperou que ele explicasse direito. Depois, nós (eu e o médico) conversamos sobre a possível cesárea que seria encarada como salvadora, já que elas provavelmente pensarão que se tivesse feito a cirurgia, nada disso teria acontecido ou que teria conseqüências menores.... Mas o mecônio estava lá há tempos, não tem nada a ver com um TP demorado ou com a convicção do PN. Muito pelo contrário, já que a passagem pelo canal de parto pressiona o tórax, ajudando a expelir os líquidos.

O duro é que como nenhuma delas tem a menor noção do que é certo, errado, esperado, anormal, a situação vai ficar no imaginário delas da forma como elas resolverem interpretar. Provavelmente não adiantará nada ter explicado. Antes de ir embora, eu desci com a tia do bebê até a UTI e fiquei esperando até que ela pudesse entrar.

5 de abril de 2008

02/09/2005

Noite fria e quase parada.

O médico do plantão de sexta é o meu GO. Ele é gente boa, mas quase não o vi hoje.

Quando cheguei a S. estava na sala de TP. Com soro, mas muito tranqüila, contrações suportáveis. Fazia frio, então peguei um cobertor, água, ofereci bala e ficamos conversando. Só fiquei mesmo com ela, mais no finalzinho, quando o residente decidiu estourar a bolsa dela. Logo em seguida ela foi pro CC e uns 10 minutos depois, a G. entrava no berçário para os procedimentos...

Eu fiquei mesmo, na sala do cardiotoco. Passaram umas 8 gestantes lá esta noite (troca de lua?), mas apenas 2 ficaram na maternidade. Uma delas parecia um aborto. Não sei por que não tive a oportunidade de conversar. E a outra é a R.

22 anos, terceiro filho, todos de PN. Ela estava em pródromos, mas mesmo assim ficou a noite toda lá em observação, por que estava perdendo líquido (será?). Quando o médico a examinou um pouco antes de eu ir embora, aproveitou pra ensinar umas coisas ao residente. Isso é péssimo pra parturiente, mas o que é que se há de fazer? Eles precisam aprender de alguma forma, né? Colo grosso, bolsa íntegra, contrações não efetivas. Foi pro cardiotoco e decidiram interná-la. Conversamos sobre falso TP e eu disse pra ela aproveitar e dormir, que provavelmente não aconteceria nada nesta noite. Prometi voltar no dia seguinte e fiu embora.No dia seguinte, no meio da tarde, volto lá... R. na sala de TP, com soro e não muito animada. Não pude ficar... uma pena!

Adendo: quando o bebê da S. nasceu, fomos todos pro vidro do berçário. Procedimentos à parte, o povo fica chocado mesmo é com o banho de balde. Por que será que as pessoas saem tascando a língua nas coisas que não conhecem? Se soubessem como o balde faz bem... tsc!

1 de junho de 2005

Coca cola com biscoito de polvilho!!!?

Ai, só rindo mesmo!
As quartas-feiras têm sido um tédio! Nenhum TP e recém paridas tranqüilas.
Fico lá, sem fazer nada.O legal disso é que dá pra conhecer melhor o pessoal. As auxiliares e o médico do plantão (o residente, na verdade), são pessoas legais, embora normalmente passem por mim como se eu não existisse. Falta de tempo e saco pra parar e conversar mesmo!

Bom, já conversamos sobre o Pedro, sobre meu TP e cesárea, sobre a disponibilidade dos médicos, sobre a realidade das parturientes do SUS, sobre o tempo, sobre jogar tênis (???), sobre muitas coisas.
Hoje, no marasmo do não acontecimento, bateu fome no doc! E eis que ele decidiu comer biscoito de polvilho com coca-cola!!!??? Argh!
Isso não tem NADA a ver com doular, mas essa aproximação informal favorece minha presença lá, né? Abre espaço pra eu poder perguntar coisas, esclarecer pontos sobre procedimentos e tals....

Hoje tinha uma mulher na sala do TP.
34 semanas, mas sem nenhum dado de pré natal, não sabia DUM, nem DPP. Grávida do 8º filho, a bolsa rompeu e ela estava em observação. Foi a primeira vez que conversei sobre uma paciente com o médico. Ele disse que ela ficaria lá até entrar em TP e que neste caso eles não costumam induzir. Ele avaliou o líquido dela e disse que tinha grumos, indicativo de que há maturidade do feto, o que o leva a pensar que a informação sobre o tempo de gestação está errada. Disse que enquanto eles puderem controlar e se não houver infecção (já ia analisar o hemograma), eles a segurariam lá. Não fariam cesárea enquanto não fosse necessário. Ou enquanto outro médico não assumisse o plantão e decidisse operar.

Hoje aliás, eu pude ouvir algumas pérolas deste mesmo residente, que segundo a enfermagem, nem sabe por que está na obstetrícia...
* S U S P I R O *